sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
CANÇÃO DE NINAR SOB O CÉU DE AUSCHWITZ
O inverno tange do outono as cores:
Descansa o peito, humana sombra.
Humana sombra, descansa o dorso
Nas pedras frias que te abriram fráguas.
Mortalhas nebulosas te afagam
Comendo o corpo que já perdeste.
Dorme, semblante tétrico, dorme,
Logo a aurora te redimirá.
Fere o dedo co'a ponta dos olhos,
Dispa o sono co'a dor que te ofertam.
Mesmo que Bianco almeje embalar-te,
Valas querem muito mais tuas cinzas.
Émerson Cardoso
(Após ler Paul Celan, ao som de "Plegaria", de Eduardo Bianco)
(Após ler Paul Celan, ao som de "Plegaria", de Eduardo Bianco)
30/11/2015
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
AS APRENDIZAGENS DO CHÃO
Existencial que já vislumbrei.
Mostra-nos, o chão, qual é
Nosso lugar sobre a terra.
Não é a ele que entregamos nosso corpo
Quando a vida se despede?
Não é ele espaço afeito a receber quem marcha
Quando o corpo já não suporta o peso?
Descer ao chão é pancada seca que nos dita regras,
Ensina-nos a reconhecer quem de fato somos.
Ele pode nos render aprendizagens
Que a firmeza das pernas jamais proporcionaria.
Ao chão costumo descer sempre
Para recolher os cacos de dentes que a vida me tem quebrado.
Émerson Cardoso
11/11/15
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
DA ARTE DE SER GRATO
Gratidão não habita as vísceras dos desleais,
Nasce abrigo em banquete-vida de seres dignos.
Palavra-chuva em calidez do chão,
É imagem úmida que lava pálpebras heroicas.
Memória-honra que não arrefece nunca,
É esperança contra decrepitudes e lodaçais.
04/10/15
ACABOU CHORARE (minha versão)
Pela janela, ao acordar, vislumbrei
Três humanos, à força de machado e picareta,
Arrancarem de mim uma das árvores da rua.
O que dizer para os devastadores:
Que não me sangrassem com a lâmina do machado,
Porque minhas folhas poderiam nunca mais se
recompor?
Acabou! – Disse a mim mesmo, quando a vi no chão,
E fiz velório o dia inteiro
Nublando a janela com o furor das pálpebras.
02/11/15
sábado, 16 de maio de 2015
O MONGE
Meu corpo é mosteiro
De paredes espessas
E a alma cheia de medos grita aprisionada!
Monge que espera olhares de benevolência,
Minhas mãos vazias pedem envergonhadas
Um bocado de Deus que me valha e cure!
Não sei conjugar o verbo
Que me daria a mim mesmo
E aproximaria-me de Deus e sua paz...
Ando silente pelas ruas largas,
Fui expulso do paraíso.
Preciso me perder para me encontrar.
Meu hábito perdeu o tom,
Minhas sandálias me abandonaram,
Minha cela cerrada está...
Um dia, assim espero,
Quero vestir novamente o hábito
E ocultar-me do mundo em gregorianos cânticos
Somente assim
(Silencioso toque de Deus em minha fronte)
Terei a paz que o mundo de mim roubou!
De paredes espessas
E a alma cheia de medos grita aprisionada!
Monge que espera olhares de benevolência,
Minhas mãos vazias pedem envergonhadas
Um bocado de Deus que me valha e cure!
Não sei conjugar o verbo
Que me daria a mim mesmo
E aproximaria-me de Deus e sua paz...
Ando silente pelas ruas largas,
Fui expulso do paraíso.
Preciso me perder para me encontrar.
Meu hábito perdeu o tom,
Minhas sandálias me abandonaram,
Minha cela cerrada está...
Um dia, assim espero,
Quero vestir novamente o hábito
E ocultar-me do mundo em gregorianos cânticos
Somente assim
(Silencioso toque de Deus em minha fronte)
Terei a paz que o mundo de mim roubou!
sexta-feira, 8 de maio de 2015
RÉQUIEM PARA UM VINTE E NOVE DE ABRIL
Na boca de um
cão oculta-se o direito de ir e vir...
Uma rixa:
De um lado, a necessidade
de reivindicar;
Decisões arbitrárias imperam,
de outro...
Efeitos morais
em balas,
Choque em
nefastas tropas,
Gritos inesperados
em abril fechado e névoa...
Dos cinco
lastros da nação o espanto:
Contra quem
furor exibe o politiqueiro que dialogar não sabe?
Contra quem
sibila a cascavélica ordem de fustigar irmãos?
Direitos humanos
ressonam alto,
Em berço
funesto repousa a pátria,
No chão as
marcas de desamparadas vozes...
Um trono ferve decisões vindouras:
E quem se opuser devassado nos pinheirais será,
E quem
sobreviver impunidades herdará da nação amada...
Na boca de um
cão oculta-se o direito de ir e vir
E a democracia os olhos baixa - entristecida e envergonhada!
Émerson Cardoso
09/05/15
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