terça-feira, 8 de abril de 2014

À ESPERA DE UM TRANSPORTE...

No mar de asfalto minha pele
Arde sob um sol de mil lâminas
Aguardo, arfante, 
O navio enumerado que me transportará...

Trabalhadores desolados,
Estudantes resistentes,
Turistas iludidos,
Quanto horror perante os céus!

Que o meu navio não demore
Não demore - peço a Deus
Acometem-me fome e neuroses de guerra
Quero um abrigo, meu Deus, meu Deus!

12/ 04/14

MOTIVO?

Por algum motivo
(Foi o sol que se pôs cedo demais,
Ou a terra que decidiu não cessar seu giro renitente?)

Por algum motivo
(Foi a palavra silenciada que emitiu seu pior grito,
Ou o medo que se materializou quando a covardia parecia fenecida?)

Por algum motivo
(Certo estou de que houve
Sim, motivo houve!)

Mas que motivo?
E o sussurro de um soturno vento
Despiu meus olhos com seus gélidos dedos:

E nada mais restou
Senão a certeza de que um motivo se fez carne  
E habitou, desnecessário, no que poderia ter sido, mas não foi.

(Émerson Cardoso)
11/07/14

MUDANÇA

Minhas almofadas, inconsoláveis,
Chorosas e empoeiradas
Perderam as cores
Foram-se hoje com a pressa
De uma mão que acena adeus...

Alguns dos meus livros ficaram macambúzios
Recebendo, de mim, a libertação numa caixa
Meus porta-retratos, adornos, vasos
Libertaram-se de meus apegos
Deram-me adeus até os quadros...

Minha geladeira silenciou
Com asperezas de neve
E, com olhos inconformados,
Foi, suspensa no ar,
Tirada de mim...

Meus vasilhames de verdes cores,
Alumínios e demais utensílios foram-se.
Meu armário, sem aceitar, partiu
Com um vaso de flores empoeiradas
E traças que em suas gavetas ocultaram-se...

Meu fogão ensimesmou-se,
Meus livros entrincheiraram-se no rancor,
Meu som calou-se entristecido,
Meus adereços da estante aturdidos ficaram:
Tudo foi corrompido por um inevitável adeus...

Meus quadros divorciaram-se das paredes,
Imergiram em caixas, com rancor, meus filmes,
Minha mesa, com suas cadeiras, revoltaram-se,
Minha poltrona e cama e tapetes furiosos
Deram-me as costas para não se despedirem...

Limpei minha casa - calado eu e ela calada
Atirei contra mim mesmo suas portas
E fechei-a altivo, mas não menos quebrantado
Até que minha idosa vizinha achou por bem
Abraçar-me com palavras de Deus-o-acompanhe...

07/04/14

sexta-feira, 14 de março de 2014

ODE À MORADORA DA CASA DO ABANDONO


Quando à casa do abandono eu retornava,
A morte havia encarcerado, às vezes, os que eu tornara amigos...

Não aconteceu assim contigo,
Não foi assim...

Diferente dos que fugiam da casa pela morte agrilhoados,
Tu a batalha venceste: um irmão distante decidiu buscar-te!

Quando te procurei na casa do abandono,
Vesti-me de uma alegria consumida em dor:

Menininha de riso fácil,
Pregaste uma peça na morte e em mim!

Tarde de maio amarelecido nas mãos,
Veste branca para te agradar,
E deram-me a notícia de que tinhas ido...

Eu sequer pude me despedir:
Nada de marejados e fundos e tristes e perdidos olhos!
Tu foste esperta e corajosa e desprezaste - com razão -
A casa do abandono...

A notícia me deixou perplexo porque sei que não vou mais te ver,
Porém a certeza tenho de que um amparo finalmente te foi servido...

Eu, alegre-triste, não me esquecerei
De que houve, numa casa propícia a desamparos,
Ser humano leve e de fragílimo corpo que dizia: "Eu sou dos astros!"

Talvez noutras vidas, noutros planos
Nós nos encontraremos e o desencontro que nos flagrou
Seja de todo, por nós, abandonado!

Tatearei, um dia, teu chapéu ornado com flores plásticas
E ouvirei novamente, assim espero, teu riso contido
De menina flagrada fazendo danação...


Émerson Cardoso
20/05/2013
(À D. Zefinha: EX-moradora do Abrigo da Mãe das Dores)





















domingo, 9 de março de 2014

EM BUSCA DE DEUS

Deus, busquei a ti por entre paisagens,
Busquei a ti em religiões e crenças...
Na beleza a ti busquei com voragem,
Em todo o mundo busquei-te a presença...

Corri louco por entre sombras densas,
Lutei para encontrar em mim coragem...
A selvageria de dores intensas
Gravaram em mim tristonhas imagens...

Deus, onde estás? Onde te encontrarei?
Teus amáveis olhos, quem me dará?
Não te encontro... Tua distância me dói...

Deus, onde estás? A quem recorrerei
Quando a força de viver acabar?
A tua ausência, ó Deus, me corrói!

Émerson Cardoso
10/05/11


sábado, 8 de março de 2014

SONETO SOBRE DAMAS DOLOROSAS

Para Edivania F. da Silva
Frida Kahlo, dolorida, sorriu
À Florbela Espanca que, pesarosa,
Desfolhou em silêncio uma rosa
Em mesa sombria que a noite vestiu...

A alegria de ambas a dor consumiu:
Olhavam-se cúmplices, lastimosas,
Traziam nos olhos flores dolorosas
Nascidas em jardim que não floriu...

Deram-se as mãos sobre a mesa dramática
Tragédias compartilhadas nos dedos
Tênues como esperanças da vida...

Almas vazias, perdidas, sorumbáticas,
Florbela se ergueu fugindo dos medos, 
E beijou, arfante, a boca de Frida.

Émerson Cardoso
09/07/11
Florbela Espanca
Frida Kahlo






segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

MINHA (NÃO) COR PREFERIDA É CINZA (ou soneto para um dia de suposta nublação)

Eu sinto, sobre mim, o céu descer
Toco o cinza das nuvens com furor...
Olho em volta e, para sobreviver,
Baixo os olhos coberto de horror...

Nada tenho que diga em meu favor
 A vida foi o ofício de sofrer
Experimentei, da crueldade, a dor
Só desamparo e tédio pude ver...

 O cinza nem de ser cor teve a sorte
É meio termo entre ser preto e ser branco
Mas significa muito para mim:

O cinza prenuncia a dor da morte
E denuncia um diagnóstico franco:
A bipolaridade sou. Sou sim!


Émerson Cardoso
30/04/11