segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
A CASA DO SÍTIO
À sombra de um tamboril,
Com flores eleitas no terreiro,
E porta aberta com mesa do santo à
mostra,
Sorria de taipa a casa, com verde na
cor e entreaberta janela.
Rústica escada de pedras,
Portas com duplas aberturas,
Pomar convidativo à espera
E vozes estridentes a confundirem-se cotidianas.
De fora, o vento a desejava
Com sedentas e cobiçosas mãos.
O tempo foi mais forte do
que o vento
E a atacou de dentro dos cômodos
com crueldade explícita.
As janelas cerraram,
As portas despediram-se,
O verde ruiu nas paredes e flores
E as vozes, depois do pranto,
silenciaram.
Émerson Cardoso
17/01/2019
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
IDEOLOGIA DA BLINDADA OSTRA
Perdi-me
em fugas pouco planejadas
E,
em ostra blindada,
Recostei
minha cabeça.
Medo
de quedas não prenunciadas,
De
inquebrantáveis farpas,
De
afetos felizes.
Para
não fazer tour no Gólgota,
Para
não festejar em Auschwitz,
Nem
dançar com ilegítimos governos,
Imergi
na ostra que, blindada,
Mastiga-me
carnes e ossos
Enquanto
idealizo gestos que não sei concretizar.
Émerson
Cardoso
28/07/17
quarta-feira, 10 de maio de 2017
CEM ANOS DE ALEGRIA
Com a ponta das
pedras que me fustigam.
Canivetes
resplandecentes
Transformo em
adorno para meu pescoço.
Em meus olhos,
quando nublados,
Espreito
premonições sempre vindouras.
Da pústula ganha
na caminhada,
Pressinto
sinceros sorrisos – e paz.
Se existe prego
fincado à força,
Estanco o sangue
na altivez da face.
Se irrompe corda
a perfurar o fôlego,
Determino vida
na rispidez do algoz.
Quando nasce
rara e fugidia lágrima,
Crio piscina
festiva e nela procuro o céu.
A dor, infame
claustro e algoz insone,
Não tem chave
capaz de me prender,
Não tem poder
sobre meus ossos,
Não rirá de mim,
porque costurei sua boca
Com a alegria
intrépida que não sabe me abandonar.
Émerson Cardoso
10/05/17
DAS PÚSTULAS DO AMOR (ou do que não existe e fere)
Amor, traga a
mortalha que me acariciará a pele.
É já momento
para que eu me dispa de mim
E triturado seja
por teus dentes de marfim e ácido.
Teus estreitos
dedos, amor, perfurarão meus olhos,
Mas, na jornada
entre a esperança e o túmulo,
Carregarei
perfurações de sal e abnegação de urtiga,
Com punho
erguido e respiração possível.
Amor, dos vermes
que me espreitam a carne,
Compreensão-que-busco-sem-sucesso-sempre,
Tu és,
certamente, o mais benéfico:
Em ti repouso à
espera de putrefação e caos.
(Émerson Cardoso
- 07/05/2017 - 09h28min)
domingo, 5 de março de 2017
MOTE PARA UM MARTELO
Estrofes criadas a partir de um desafio proposto pelo escritor e professor Arturo Gouveia. Ele propôs o mote e eu tentei escrever algo.
SEM TALENTO NENHUM PARA IMPROVISO,
PELO MENOS ESCREVO MEU MARTELO
Certamente careço de talento
Decassílabo pode ser cruel.
Sobretudo ao pelejar com tropel
De poetas com versos opulentos...
O cearense, porém, é impingento.
Silencioso não é nem um farelo,
Vocação nunca teve pra Carmelo,
Prepondera sua fama de ser liso:
Sem talento nenhum para improviso,
Pelo menos escrevo meu martelo.
Competir me mete medo profundo,
Mas cearense não foge do combate.
Resistente, ele nunca se abate,
Devagar ele vai traçando o mundo.
Se entristece, alegre está num segundo,
Escrever não vai ser nenhum flagelo.
Apesar de não ser bem o que anelo,
Pois queria mesmo o verso mais preciso:
Sem talento nenhum para improviso,
Pelo menos escrevo meu martelo.
(Émerson Cardoso – 14/01/16)
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