sexta-feira, 14 de março de 2014

ODE À MORADORA DA CASA DO ABANDONO


Quando à casa do abandono eu retornava,
A morte havia encarcerado, às vezes, os que eu tornara amigos...

Não aconteceu assim contigo,
Não foi assim...

Diferente dos que fugiam da casa pela morte agrilhoados,
Tu a batalha venceste: um irmão distante decidiu buscar-te!

Quando te procurei na casa do abandono,
Vesti-me de uma alegria consumida em dor:

Menininha de riso fácil,
Pregaste uma peça na morte e em mim!

Tarde de maio amarelecido nas mãos,
Veste branca para te agradar,
E deram-me a notícia de que tinhas ido...

Eu sequer pude me despedir:
Nada de marejados e fundos e tristes e perdidos olhos!
Tu foste esperta e corajosa e desprezaste - com razão -
A casa do abandono...

A notícia me deixou perplexo porque sei que não vou mais te ver,
Porém a certeza tenho de que um amparo finalmente te foi servido...

Eu, alegre-triste, não me esquecerei
De que houve, numa casa propícia a desamparos,
Ser humano leve e de fragílimo corpo que dizia: "Eu sou dos astros!"

Talvez noutras vidas, noutros planos
Nós nos encontraremos e o desencontro que nos flagrou
Seja de todo, por nós, abandonado!

Tatearei, um dia, teu chapéu ornado com flores plásticas
E ouvirei novamente, assim espero, teu riso contido
De menina flagrada fazendo danação...


Émerson Cardoso
20/05/2013
(À D. Zefinha: EX-moradora do Abrigo da Mãe das Dores)





















domingo, 9 de março de 2014

EM BUSCA DE DEUS

Deus, busquei a ti por entre paisagens,
Busquei a ti em religiões e crenças...
Na beleza a ti busquei com voragem,
Em todo o mundo busquei-te a presença...

Corri louco por entre sombras densas,
Lutei para encontrar em mim coragem...
A selvageria de dores intensas
Gravaram em mim tristonhas imagens...

Deus, onde estás? Onde te encontrarei?
Teus amáveis olhos, quem me dará?
Não te encontro... Tua distância me dói...

Deus, onde estás? A quem recorrerei
Quando a força de viver acabar?
A tua ausência, ó Deus, me corrói!

Émerson Cardoso
10/05/11


sábado, 8 de março de 2014

SONETO SOBRE DAMAS DOLOROSAS

Para Edivania F. da Silva
Frida Kahlo, dolorida, sorriu
À Florbela Espanca que, pesarosa,
Desfolhou em silêncio uma rosa
Em mesa sombria que a noite vestiu...

A alegria de ambas a dor consumiu:
Olhavam-se cúmplices, lastimosas,
Traziam nos olhos flores dolorosas
Nascidas em jardim que não floriu...

Deram-se as mãos sobre a mesa dramática
Tragédias compartilhadas nos dedos
Tênues como esperanças da vida...

Almas vazias, perdidas, sorumbáticas,
Florbela se ergueu fugindo dos medos, 
E beijou, arfante, a boca de Frida.

Émerson Cardoso
09/07/11
Florbela Espanca
Frida Kahlo






segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

MINHA (NÃO) COR PREFERIDA É CINZA (ou soneto para um dia de suposta nublação)

Eu sinto, sobre mim, o céu descer
Toco o cinza das nuvens com furor...
Olho em volta e, para sobreviver,
Baixo os olhos coberto de horror...

Nada tenho que diga em meu favor
 A vida foi o ofício de sofrer
Experimentei, da crueldade, a dor
Só desamparo e tédio pude ver...

 O cinza nem de ser cor teve a sorte
É meio termo entre ser preto e ser branco
Mas significa muito para mim:

O cinza prenuncia a dor da morte
E denuncia um diagnóstico franco:
A bipolaridade sou. Sou sim!


Émerson Cardoso
30/04/11


SONETO PARA QUEM MELHOR ENXERGA (porque vê com os olhos da poesia)


Se meu porvir for uma noite escura
Se nas sombras os meus dias se quedarem
Se meus pés aos abismos se inclinarem
Nada me será Dor ou desventura...

Se minha vida for só Amargura
Se as cores meus olhos não mais fitarem
Se nunca mais o mundo contemplarem
Não me guiarei por sendas de loucura...


Não! Terei comigo a luz mais fulgente:
Desfarei a escuridão sempre em versos,
Serei a Esperança em nova alegria!

Quero, por meio de Palavras pungentes,
Meu Ser derramar de modos diversos
E andar guiada pelas mãos da Poesia!


Émerson cardoso
(Para Siddha Abraxas, em 12/04/12)




ESPECULAÇÕES SOBRE A AMIZADE


Uma verdade expurgada seja:
Como seria a vida
Sem contemporâneos de abertos braços
À amizade afeitos?

Mediocridade, egoísmo, entraves,
Gestos facínoras típicos do homem?
A amizade não...

Quando existente,
Sequer suscita mesquinharias.
Murmúrios de sol em madrugada alta,
A amizade boceja sempre perdão...

Quem se entrincheira em si mesmo,
Ou deforma-se no egoísmo desmesurado,
A amizade não...

Quando, de fato,
Sequer conhece da inveja a maldição.
Giros de claridade em cômodos obscuros da alma,
A amizade na covardia não ergue morada...

Infidelidade, soberba, intolerância,
Devastações advindas de imaturas bocas?
A amizade não...

Quando desvelada,
Sequer murmura incompreensões.
Olhares cúmplices de riso em funestos âmbitos,
A amizade torna possível a existência de quem vivo é.

Mas é necessário reconhecer
Quão rara é a amizade em nossa vida,
Pois que deve ser sufrágio explícito
Contra dissabores e desamparos...

Desconfiança, silêncio e solidão?
A amizade não!
Émerson Cardoso
22/02/14

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

ESPECULAÇÕES AMOROSAS SOBRE A POESIA...

Poesia, Senhor João Cabral,
Se pedra é
A minha é pontiaguda
E eu a atiro contra mim mesmo:
Corre sempre sangue e água em meus estios...

Poesia, Senhor Manuel Bandeira,
Tem parte com a memória e seus cotidianos
E perde-se na palavra que nunca é completa.
Assomo prático de enlutada vida,
A poesia, se dor traduz,
Faz-se açúcar no amargor do tempo que se vai...

Poesia, Senhor Augusto dos Anjos,
É saliva homicida que prolifera
As larvas que vivem à espreita do meu corpo.
Das sombras emerge a poesia
E seus luzimentos são espargidos sobre mim
Como venéfica serpente que a tudo engole.

Poesia, Senhora Cecília Meireles,
É a face obscura do fugidio tempo
Que enruga a face e devasta o corpo.
Na efêmera existência, a poesia
Dança melancólica e abraça toda a essência
De que o ser é dotado para vesti-lo de liberdade...

Poesia, Senhora Hilda Hilst,
É o despudorado olhar
De um cavalo em galope silencioso.
Nudez na boca ante proferida palavra,
Rompantes e dores do amor em adeus,
A poesia de libertinagens faz seus vestidos...

Poesia, Senhora Florbela Espanca,
É a presençausência de um alguém
Que sequer poderia ter existido,
Mas que sempre nos vem.
Tragédia na ponta dos dedos,
A poesia toma proporções de eterno desamparo...

Poesia, Senhor Agostinho Neto,
É um grilhão quebrado pelo grito de insatisfação.
Cada palavra uma bandeira erguida
Manchada ou não pelo sangue negro
Dos meus antepassados de sedentos olhos
E erguidos braços em resistência sempre...

Poesia, Senhor García Lorca,
Tem a consistência de botas pisando
Contra a humanidade dos homens.
Traz seus mistérios ciganos,
Revolve na campa a solidão dos amantes
E voa - borboleta frágil de fendidas asas ...

Poesia, Senhora Sylvia Plath,
É um dente que dói em constantes fisgadas,
Rasga o olho em cortante machado
E perfura o peito em preterimentos sem fim.
A poesia corta pulso, quebra sonhos,
Tritura almas e perfura a vida que se despede com razão...

Poesia, Ó Poetas que eu escolhi,
É a minha ousadia que agora expele,
Por meio de um poema frágil,
Sensações que precisam ser reveladas.
Poesia é, bem sabemos,
O silêncio barulhento que irrompe
E nos preenche deslibertadamente
Como se não pudéssemos ser livres
Do cárcere que ela nos impõe...

Poetas, eu sei
Eu sei o que é poesia:
É a angústia hiperbólica,
A mortandade não sombria,
A percepção melancólica,
A noite que engole o dia,
A sensação eufórica,
A dor no auge da alegria,
A necessidade simbólica
De compartilhar a vida!

Eu sei - que pretensão! - o que é poesia:
E nela me encontro
E sem ela o que eu seria?


Émerson Cardoso 
 (20/02/07 - 05/02/14)