quinta-feira, 10 de novembro de 2016

UMA (NÃO) PRECE À LUA


Lua de mortalha aberta em riso amargo,
Que esperas de mim:
Que eu te implore do amor cruentas fráguas
E humilde aceite o sepulcro aceso que me queres dar?
Escorpiões me espreitam em tuas sendas, Lua,
Mas pele não tenho para urticante agrado.
Quero silêncio em meus pés compungidos
E solidão em meus cadentes olhos...

Amor? Não, Lua, não creio, não devo, não careço!
Perfurado, o peito aspira pouco
E por estar sozinho não perderei a paz!

Émerson Cardoso
07/11/16



sábado, 15 de outubro de 2016

PERFIL VIRTUAL DA MOÇA QUE DESAPAIXONOU (ou ode à desistência mais-que-necessária)

Epístolas whatsAppianas
Notas espargidas inbox
E-mails infindos a resvalar soturnos
Torpedos exaustivos a desejar encontros...

Não mais, paixão-nascida,
Não mais, porque não posso
Existir em nome do que não-é!

Excluí seu número
Apaguei suas selfies
Desfiz no face nossa abstrata relação...

E o sistema solar, pasme, não se deslocou:
A gravidade ainda alinha planetas e seus satélites!

O que deixou de ser, paixão-profunda,
Foi a necessidade de concretização que eu fantasiava.
Racionalizei o que sentia e,
Tão certo quanto o que é virtual nos cansa,
Deixei de verificar mensagens com suas autocorreções infames.

Não mais, virtual-cavalheiro!
Não mais, porque mulher precisa de amor que exista
E qualquer pessoa cansa do que não é concreto!

15/10/2016

ODE PARA O QUE NÃO É ABRIGO

Quando o tempo tritura meus olhos sem força,
tenho medo...

Mas quem tem medo olha a si mesmo em poças de chuva
para constatar fugacidades nos cílios?

O tempo sepulta existências em tirânicas datas,
tentando me amedrontar...

Ele me atinge (dos-covardes-sou-a-maior-vítima!)
e sabe rir dos frágeis com desdém e fel!

Quem tem medo olha a si mesmo em palavra estreita
que se pretende poema e nada mais é do que susto?

O tempo olhou-me com seu cinismo,
O medo embalou-me com sua morbidez
E eu os olhos baixei para fitar a mim mesmo no áspero do chão,
Que é abrigo para os que almejam um dia rebelar-se!

Émerson Cardoso

19/02/16

RÉQUIEM PARA LUZIA

Eita, Luzia, parece que foi ontem
Que apertamos as mãos em despedida!
Que feliz conhecê-la nesta vida,
Vida que tende a ser pouco amigável!

Tu foste um ser humano tão amável!
Tantas vezes agiste por bondade
Quando isto em alguém é raridade:
E foste abrigo, afeto e acolhimento!

Foi de Deus caro presente, Luzia,
Tê-la encontrado em venturoso dia
E poder contar com sua amizade...

Qualquer lágrima que corra por ti,
É lembrança de que a vejo sorrir
Em minha mente plena de saudade!

Émerson Cardoso
13/06/16

quinta-feira, 2 de junho de 2016

LAMENTO SECULAR (ou revolta da mosca insana a quem Antoine Roquentin ofertou mortalha)

Antoine Roquentin,
Não fustigues o corpo
De existência perecível
Que me deram por herança!

Que direito tens
De me doares morte
Se o preço a pagar
É inexistir somente?

Não quero mortalha,
Antoine, não quero morte.

Só quero a aleluia,
Some of these days you'll be sorry!

Émerson Cardoso
02/06/2016





(sagitário no espelho é ruim)


POR MINHA HAMARTIA, MINHA TÃO GRANDE HAMARTIA (ou: em tempo de cego, quem tem boca ouça!)

Perdidas palavras percorreram minha boca.
Porcos profanaram pisadas pérolas.
Punhos hostis predisseram pancadas.
Espíritos impuros lançaram punhais.

Pedras despedacem meus olhos,
Perfurem meus pulsos,
Dispam minha língua,
Quando palavra inútil proferida for.

Quando serpente arfar, pobre, em podres paredes,
Opte, palavra minha, por não perder-se.
Não sepulte no oco o que pode silêncio ser,
Não há compreensão quando baixeza humana se faz manada.



Émerson Cardoso
09/05/2016

Poema selecionado para a Antologia da 6ª Mostra Abril para Leitura do Centro Cultural Bando do Nordeste - CCBNB - Cariri.