quinta-feira, 3 de outubro de 2019

DESOBEDECENDO A RILKE (ou notas sobre o amor ausente)


Imagem linda que não sei quem criou,  
apesar de pesquisar muito

Você viu passar, por aqui, o amor?

Foi dispersão ou medo?
Brinquedo em quantas fugas?
Virar do rosto quando deveria olhar?

Em cada passo apressado passeei dormente
À espera de sinais que nunca chegaram:
Percebi só a superfície do meu olhar sem chão.

Você ainda vê o amor
Quando ele, invisível, se pavoneia ausente?
É tempo de amar, apesar do abismo?

Solidão sem trégua se abre para meu corpo-medo.
Vixe! Mas o que é isto?
Há um verde nascendo em meu olhar sem prece.

Émerson Cardoso
03/10/2019




segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

HAIKAI CINEMATOGRÁFICO

E o herói se reabilita:
O mundo o destrói,
A esperança o ressuscita.

Émerson Cardoso
20/09/2018

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A CASA DO SÍTIO




À sombra de um tamboril,
Com flores eleitas no terreiro,
E porta aberta com mesa do santo à mostra,
Sorria de taipa a casa, com verde na cor e entreaberta janela.

Rústica escada de pedras,
Portas com duplas aberturas,
Pomar convidativo à espera 
E vozes estridentes a confundirem-se cotidianas.

De fora, o vento a desejava
Com sedentas e cobiçosas mãos.
O tempo foi mais forte do que o vento
E a atacou de dentro dos cômodos com crueldade explícita.

As janelas cerraram,
As portas despediram-se,
O verde ruiu nas paredes e flores
E as vozes, depois do pranto, silenciaram.

Émerson Cardoso
17/01/2019

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

IDEOLOGIA DA BLINDADA OSTRA



Perdi-me em fugas pouco planejadas
E, em ostra blindada,
Recostei minha cabeça.

Medo de quedas não prenunciadas,
De inquebrantáveis farpas,
De afetos felizes.

Para não fazer tour no Gólgota,
Para não festejar em Auschwitz,
Nem dançar com ilegítimos governos,
Imergi na ostra que, blindada,
Mastiga-me carnes e ossos
Enquanto idealizo gestos que não sei concretizar.

Émerson Cardoso
28/07/17



NO DESERTO (ou prece a São Francisco)



quarta-feira, 10 de maio de 2017

CEM ANOS DE ALEGRIA


Teço tranquilo manto
Com a ponta das pedras que me fustigam.
Canivetes resplandecentes
Transformo em adorno para meu pescoço.
Em meus olhos, quando nublados,
Espreito premonições sempre vindouras.  
Da pústula ganha na caminhada,
Pressinto sinceros sorrisos – e paz.
Se existe prego fincado à força,
Estanco o sangue na altivez da face.
Se irrompe corda a perfurar o fôlego,
Determino vida na rispidez do algoz.
Quando nasce rara e fugidia lágrima,
Crio piscina festiva e nela procuro o céu.
A dor, infame claustro e algoz insone,
Não tem chave capaz de me prender,
Não tem poder sobre meus ossos,
Não rirá de mim, porque costurei sua boca
Com a alegria intrépida que não sabe me abandonar.

Émerson Cardoso

10/05/17

DAS PÚSTULAS DO AMOR (ou do que não existe e fere)

Amor, traga a mortalha que me acariciará a pele.
É já momento para que eu me dispa de mim
E triturado seja por teus dentes de marfim e ácido.
Teus estreitos dedos, amor, perfurarão meus olhos,
Mas, na jornada entre a esperança e o túmulo,
Carregarei perfurações de sal e abnegação de urtiga,
Com punho erguido e respiração possível.

Amor, dos vermes que me espreitam a carne,
Compreensão-que-busco-sem-sucesso-sempre,
Tu és, certamente, o mais benéfico:
Em ti repouso à espera de putrefação e caos.

(Émerson Cardoso - 07/05/2017 - 09h28min)