terça-feira, 6 de maio de 2014
HAIKAI PARA MINHAS INDECISÕES
Cachorro correndo louco
Que alcança o que caça
E não sabe o que fazer
Que alcança o que caça
E não sabe o que fazer
(Émerson Cardoso)
23/05/14
FOTOGRAFIA
![]() |
| Foto: Erika Dias |
Fotografar torna-se, portanto, uma tentativa
De resguardar, da cena,
Um pouco do nós que já não somos.
Tão intrigante é a fotografia
Que me arrisco a dizer:
Sua imagem estática é o medo do não-mais
Que nós temos pavor de vislumbrar.
Congelados os momentos,
Resta-nos a ilusão de revivê-los.
Num olhar sempre nostálgico
Desejamos, insubmissos, revisitá-los.
Mas a fotografia,
Tragédia e sombra,
Ri de nós que a contemplamos.
Tão densa é que sequer nos esforçamos
Tenho medo do que ela pode ocultar:
Silêncio e grito ou saudade e dor
Nunca felicidade dela tiraremos:
Fotografia é sempre o-não-mais que ri de nós...
(Émerson Cardoso)
terça-feira, 8 de abril de 2014
À ESPERA DE UM TRANSPORTE...
No mar de asfalto minha pele
Arde sob um sol de mil lâminas
Aguardo, arfante,
O navio enumerado que me transportará...
Trabalhadores desolados,
Estudantes resistentes,
Turistas iludidos,
Quanto horror perante os céus!
Que o meu navio não demore
Não demore - peço a Deus
Acometem-me fome e neuroses de guerra
Quero um abrigo, meu Deus, meu Deus!
12/ 04/14
MOTIVO?
Por algum motivo
(Foi o sol que se pôs cedo demais,
Ou a terra que decidiu não cessar seu giro renitente?)
Por algum motivo
(Foi a palavra silenciada que emitiu seu pior grito,
Ou o medo que se materializou quando a covardia parecia fenecida?)
Por algum motivo
(Certo estou de que houve
Sim, motivo houve!)
Mas que motivo?
E o sussurro de um soturno vento
Despiu meus olhos com seus gélidos dedos:
E nada mais restou
Senão a certeza de que um motivo se fez carne
E habitou, desnecessário, no que poderia ter sido, mas não foi.
(Émerson Cardoso)
11/07/14
(Foi o sol que se pôs cedo demais,
Ou a terra que decidiu não cessar seu giro renitente?)
Por algum motivo
(Foi a palavra silenciada que emitiu seu pior grito,
Ou o medo que se materializou quando a covardia parecia fenecida?)
Por algum motivo
(Certo estou de que houve
Sim, motivo houve!)
Mas que motivo?
E o sussurro de um soturno vento
Despiu meus olhos com seus gélidos dedos:
E nada mais restou
Senão a certeza de que um motivo se fez carne
E habitou, desnecessário, no que poderia ter sido, mas não foi.
(Émerson Cardoso)
11/07/14
MUDANÇA
Minhas almofadas, inconsoláveis,
Chorosas e empoeiradas
Perderam as cores
Foram-se hoje com a pressa
De uma mão que acena adeus...
Alguns dos meus livros ficaram macambúzios
Recebendo, de mim, a libertação numa caixa
Meus porta-retratos, adornos, vasos
Libertaram-se de meus apegos
Deram-me adeus até os quadros...
Minha geladeira silenciou
Com asperezas de neve
E, com olhos inconformados,
Foi, suspensa no ar,
Tirada de mim...
Meus vasilhames de verdes cores,
Alumínios e demais utensílios foram-se.
Meu armário, sem aceitar, partiu
Com um vaso de flores empoeiradas
E traças que em suas gavetas ocultaram-se...
Meu fogão ensimesmou-se,
Meus livros entrincheiraram-se no rancor,
Meu som calou-se entristecido,
Meus adereços da estante aturdidos ficaram:
Tudo foi corrompido por um inevitável adeus...
Meus quadros divorciaram-se das paredes,
Imergiram em caixas, com rancor, meus filmes,
Minha mesa, com suas cadeiras, revoltaram-se,
Minha poltrona e cama e tapetes furiosos
Deram-me as costas para não se despedirem...
Limpei minha casa - calado eu e ela calada
Atirei contra mim mesmo suas portas
E fechei-a altivo, mas não menos quebrantado
Até que minha idosa vizinha achou por bem
Abraçar-me com palavras de Deus-o-acompanhe...
Chorosas e empoeiradas
Perderam as cores
Foram-se hoje com a pressa
De uma mão que acena adeus...
Alguns dos meus livros ficaram macambúzios
Recebendo, de mim, a libertação numa caixa
Meus porta-retratos, adornos, vasos
Libertaram-se de meus apegos
Deram-me adeus até os quadros...
Minha geladeira silenciou
Com asperezas de neve
E, com olhos inconformados,
Foi, suspensa no ar,
Tirada de mim...
Meus vasilhames de verdes cores,
Alumínios e demais utensílios foram-se.
Meu armário, sem aceitar, partiu
Com um vaso de flores empoeiradas
E traças que em suas gavetas ocultaram-se...
Meu fogão ensimesmou-se,
Meus livros entrincheiraram-se no rancor,
Meu som calou-se entristecido,
Meus adereços da estante aturdidos ficaram:
Tudo foi corrompido por um inevitável adeus...
Meus quadros divorciaram-se das paredes,
Imergiram em caixas, com rancor, meus filmes,
Minha mesa, com suas cadeiras, revoltaram-se,
Minha poltrona e cama e tapetes furiosos
Deram-me as costas para não se despedirem...
Limpei minha casa - calado eu e ela calada
Atirei contra mim mesmo suas portas
E fechei-a altivo, mas não menos quebrantado
Até que minha idosa vizinha achou por bem
Abraçar-me com palavras de Deus-o-acompanhe...
07/04/14
sexta-feira, 14 de março de 2014
ODE À MORADORA DA CASA DO ABANDONO
A morte havia encarcerado, às vezes, os que eu tornara amigos...
Não aconteceu assim contigo,
Não foi assim...
Diferente dos que fugiam da casa pela morte agrilhoados,
Tu a batalha venceste: um irmão distante decidiu buscar-te!
Quando te procurei na casa do abandono,
Vesti-me de uma alegria consumida em dor:
Menininha de riso fácil,
Pregaste uma peça na morte e em mim!
Tarde de maio amarelecido nas mãos,
Veste branca para te agradar,
E deram-me a notícia de que tinhas ido...
Eu sequer pude me despedir:
Nada de marejados e fundos e tristes e perdidos olhos!
Tu foste esperta e corajosa e desprezaste - com razão -
A casa do abandono...
A notícia me deixou perplexo porque sei que não vou mais te ver,
Porém a certeza tenho de que um amparo finalmente te foi servido...
Eu, alegre-triste, não me esquecerei
De que houve, numa casa propícia a desamparos,
Ser humano leve e de fragílimo corpo que dizia: "Eu sou dos astros!"
Talvez noutras vidas, noutros planos
Nós nos encontraremos e o desencontro que nos flagrou
Seja de todo, por nós, abandonado!
Tatearei, um dia, teu chapéu ornado com flores plásticas
E ouvirei novamente, assim espero, teu riso contido
De menina flagrada fazendo danação...
Émerson Cardoso
20/05/2013
(À D. Zefinha: EX-moradora do Abrigo da Mãe das Dores)
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