segunda-feira, 27 de outubro de 2014

LÂMINAS NACIONAIS


O que dizer agora?

Talvez seja, não sei,
A sensação de que dá medo
Pisar o solo de uma pátria
Que estende tapete de ódio
Tendo como álibi contexto político.

Talvez seja, deve ser,
Porque lamento dizer-me parte de uma nação
Que me força reflexos de espelhos com véu de hostilidades.

São ineficazes minhas palavras,
Não conseguirei expressar o que me invade:
É como ver os próprios olhos deslizando em rios de lama
E ser afetado por lâminas que reacendem antigas fráguas.


27/10/14




sexta-feira, 17 de outubro de 2014

QUANDO UMA MÃE DOA UM FILHO (ou história triste de um mês de julho pobre)

Diz a memória que era linda a menina
Menina de cabelos negros e pele clarinha
Colocaram-na sobre a cama dos patrões da mãe
(Da pobre mãe da menina há pouco nascida)

Diz a memória que um primeiro de julho era
De ano funesto como espinho que aos poucos fura
Esta mãe, sem nada e sem ninguém que por ela punisse,
Instigada pela mulher do patrão disse: sim...

Sim, que família distante me venha roubar a filha,
Porque no mundo uma mãe criar um filho não pode
(Mas na hora da partida pediu, com os olhos:
Deixem-na comigo um-pouco-mais-para-sempre)

Não consentiram (a menina em nova manta se foi)
A mãe, com o vazio choroso nos braços,
Viu crescer uma ausência de faca pontiaguda
Que rasgou olhos, braços, coração...

Diz a memória que linda era a menina
E que a mãe não sabia que a ausência de um filho
Poderia pesar, por toda vida, infindas toneladas
A cada sim que a lembrança desejava transformar em não...



(Ao som de Duerme negrito, na voz de Mercedes Sosa)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

PEDIDO À DEUSA ÁRTEMIS (ou hino dos assexuais)


Ártemis, expulsemos Afrodite:
Atiremo-la fora com fervores! 
Ó deusa revestida de pudores,
Despeça-a, renegue-a, nunca hesite,

Ártemis, humilhe-a e a impossibilite 
De propagar as urgências de amores
Que perpassam humanos com ardores:
Que ela, ao amor, a ninguém mais incite!

Ártemis, dos castos deusa, combata
As façanhas maldosas de Afrodite:
Proteja seus devotados mortais!

Seja contra Afrodite, e não cordata,
Pois esta vil, Ártemis, acredite
Destrói frágeis almas com seus punhais... 

Émerson Cardoso
26/09/14
17h 30min


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

DAS PROEZAS DE SETEMBRO

Setembro riu de mim com seu olhar ferino
Deslizou ousado na ponta dos meus dedos

Construiu silêncios em minha boca austera
Vestiu de ventanias meus passos em busca de

Quase me fez cair no precipício de improvável paz
Antes, serpenteou sorrindo, como sempre, e riu de mim

Setembro sempre procura subterfúgios para mostrar
Que respira cinzas de um incêndio que em mim se deu

E, no sertão, calor e sol - flores morreram
Porque maio se foi saudoso e triste sem despedida

Agora, por alguns dias, esperarei setembro sumir
E quem sabe minhas mãos sejam reabastecidas

Quero novos rumos, novas ideias, novas cores
Setembro precisa trazer outubro e fugir para sempre!

24/09/14


terça-feira, 15 de julho de 2014

IMAGENS

Roupas nos varais acenam,
Pedras, vento, solidão

Cenários austeros passam
Sem qualquer coloração

Choram que choram os seixos
Sentindo-se repisados

Na estrada altivo um cruzeiro
Verte sombra desolado

Olha-me o cinza vestido
Da moça de mãos tristonhas

De semblante ressentido
Por ter vida tão medonha

Para trás fica o cenário
Com sua gente desolada

Um bendito devotado
Guia o caminhão na estrada

Choram que choram as horas
Deslizando pelo caminho

Tendo ao lado tanta gente
Por que me sinto sozinho?

Choro com as horas choro
Sentindo-me triste e só

Cada passo um grito novo
Solidão que ri sem dó...