sábado, 8 de março de 2014

SONETO SOBRE DAMAS DOLOROSAS

Para Edivania F. da Silva
Frida Kahlo, dolorida, sorriu
À Florbela Espanca que, pesarosa,
Desfolhou em silêncio uma rosa
Em mesa sombria que a noite vestiu...

A alegria de ambas a dor consumiu:
Olhavam-se cúmplices, lastimosas,
Traziam nos olhos flores dolorosas
Nascidas em jardim que não floriu...

Deram-se as mãos sobre a mesa dramática
Tragédias compartilhadas nos dedos
Tênues como esperanças da vida...

Almas vazias, perdidas, sorumbáticas,
Florbela se ergueu fugindo dos medos, 
E beijou, arfante, a boca de Frida.

Émerson Cardoso
09/07/11
Florbela Espanca
Frida Kahlo






segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

MINHA (NÃO) COR PREFERIDA É CINZA (ou soneto para um dia de suposta nublação)

Eu sinto, sobre mim, o céu descer
Toco o cinza das nuvens com furor...
Olho em volta e, para sobreviver,
Baixo os olhos coberto de horror...

Nada tenho que diga em meu favor
 A vida foi o ofício de sofrer
Experimentei, da crueldade, a dor
Só desamparo e tédio pude ver...

 O cinza nem de ser cor teve a sorte
É meio termo entre ser preto e ser branco
Mas significa muito para mim:

O cinza prenuncia a dor da morte
E denuncia um diagnóstico franco:
A bipolaridade sou. Sou sim!


Émerson Cardoso
30/04/11


SONETO PARA QUEM MELHOR ENXERGA (porque vê com os olhos da poesia)


Se meu porvir for uma noite escura
Se nas sombras os meus dias se quedarem
Se meus pés aos abismos se inclinarem
Nada me será Dor ou desventura...

Se minha vida for só Amargura
Se as cores meus olhos não mais fitarem
Se nunca mais o mundo contemplarem
Não me guiarei por sendas de loucura...


Não! Terei comigo a luz mais fulgente:
Desfarei a escuridão sempre em versos,
Serei a Esperança em nova alegria!

Quero, por meio de Palavras pungentes,
Meu Ser derramar de modos diversos
E andar guiada pelas mãos da Poesia!


Émerson cardoso
(Para Siddha Abraxas, em 12/04/12)




ESPECULAÇÕES SOBRE A AMIZADE


Uma verdade expurgada seja:
Como seria a vida
Sem contemporâneos de abertos braços
À amizade afeitos?

Mediocridade, egoísmo, entraves,
Gestos facínoras típicos do homem?
A amizade não...

Quando existente,
Sequer suscita mesquinharias.
Murmúrios de sol em madrugada alta,
A amizade boceja sempre perdão...

Quem se entrincheira em si mesmo,
Ou deforma-se no egoísmo desmesurado,
A amizade não...

Quando, de fato,
Sequer conhece da inveja a maldição.
Giros de claridade em cômodos obscuros da alma,
A amizade na covardia não ergue morada...

Infidelidade, soberba, intolerância,
Devastações advindas de imaturas bocas?
A amizade não...

Quando desvelada,
Sequer murmura incompreensões.
Olhares cúmplices de riso em funestos âmbitos,
A amizade torna possível a existência de quem vivo é.

Mas é necessário reconhecer
Quão rara é a amizade em nossa vida,
Pois que deve ser sufrágio explícito
Contra dissabores e desamparos...

Desconfiança, silêncio e solidão?
A amizade não!
Émerson Cardoso
22/02/14

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

ESPECULAÇÕES AMOROSAS SOBRE A POESIA...

Poesia, Senhor João Cabral,
Se pedra é
A minha é pontiaguda
E eu a atiro contra mim mesmo:
Corre sempre sangue e água em meus estios...

Poesia, Senhor Manuel Bandeira,
Tem parte com a memória e seus cotidianos
E perde-se na palavra que nunca é completa.
Assomo prático de enlutada vida,
A poesia, se dor traduz,
Faz-se açúcar no amargor do tempo que se vai...

Poesia, Senhor Augusto dos Anjos,
É saliva homicida que prolifera
As larvas que vivem à espreita do meu corpo.
Das sombras emerge a poesia
E seus luzimentos são espargidos sobre mim
Como venéfica serpente que a tudo engole.

Poesia, Senhora Cecília Meireles,
É a face obscura do fugidio tempo
Que enruga a face e devasta o corpo.
Na efêmera existência, a poesia
Dança melancólica e abraça toda a essência
De que o ser é dotado para vesti-lo de liberdade...

Poesia, Senhora Hilda Hilst,
É o despudorado olhar
De um cavalo em galope silencioso.
Nudez na boca ante proferida palavra,
Rompantes e dores do amor em adeus,
A poesia de libertinagens faz seus vestidos...

Poesia, Senhora Florbela Espanca,
É a presençausência de um alguém
Que sequer poderia ter existido,
Mas que sempre nos vem.
Tragédia na ponta dos dedos,
A poesia toma proporções de eterno desamparo...

Poesia, Senhor Agostinho Neto,
É um grilhão quebrado pelo grito de insatisfação.
Cada palavra uma bandeira erguida
Manchada ou não pelo sangue negro
Dos meus antepassados de sedentos olhos
E erguidos braços em resistência sempre...

Poesia, Senhor García Lorca,
Tem a consistência de botas pisando
Contra a humanidade dos homens.
Traz seus mistérios ciganos,
Revolve na campa a solidão dos amantes
E voa - borboleta frágil de fendidas asas ...

Poesia, Senhora Sylvia Plath,
É um dente que dói em constantes fisgadas,
Rasga o olho em cortante machado
E perfura o peito em preterimentos sem fim.
A poesia corta pulso, quebra sonhos,
Tritura almas e perfura a vida que se despede com razão...

Poesia, Ó Poetas que eu escolhi,
É a minha ousadia que agora expele,
Por meio de um poema frágil,
Sensações que precisam ser reveladas.
Poesia é, bem sabemos,
O silêncio barulhento que irrompe
E nos preenche deslibertadamente
Como se não pudéssemos ser livres
Do cárcere que ela nos impõe...

Poetas, eu sei
Eu sei o que é poesia:
É a angústia hiperbólica,
A mortandade não sombria,
A percepção melancólica,
A noite que engole o dia,
A sensação eufórica,
A dor no auge da alegria,
A necessidade simbólica
De compartilhar a vida!

Eu sei - que pretensão! - o que é poesia:
E nela me encontro
E sem ela o que eu seria?


Émerson Cardoso 
 (20/02/07 - 05/02/14)




RECEITA DE HUMANIDADE PARA ARROGANTES



Tenha em mãos o corpo de algum ser humano.
(Morto, de preferência!)
Assegure-se de que este esteja despido
E não higienizado.

Coloque-o sobre uma mobília
(A mobília deve ser recoberta com limpo lençol)
E em destaque em espaço contíguo.

Sente-se e espere, por alguns dias:
Importante não espantar as moscas que sobre ele bailarem.

Quando perceber um odor putrefato no ar,
Quando assomar inevitável decomposição,
Passeie, sobre o líquido podre, sua mão.
Leve-a generosamente às narinas
E sorva o irrevitalizável odor
Sem pudor, náusea ou receio.

Se larvas começarem a irromper,
Tome as larvas nos dedos e quebre-as nos dentes.

Ao perceber necessidades de sepultamento,
Despeje os restos mortais em esquife não untado
E livre-se, sem velório, deles o quanto antes...

No mais:
Leve sempre a decomposição nos olhos,
A putrefação por toda vida resguarde em suas narinas,
Nas mãos, sinta a liquidez da carne finda,
Relembre infinitas vezes o abismo que o esquife preencheu...

Pronto: a receita de humanidade para arrogantes se deu!

E guarde consigo sempre
(E confesse sobre os telhados)
A certeza profética de que dispõe:
De ser um ser humano, nesta vida, 
Com direito à decomposição,
Sequer os arrogantes se livrarão!



Émerson Cardoso
28-31/01/14

CARDOSO, Cícero Émerson do Nascimento. Receita de humanidade para arrogantes. Revista Satírika, n. 14, p. 15 - 16, ago. 2017. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

POEMA DO QUE É TALVEZ


Talvez seja isto:
Touro acossado de gêmeos cornos
Que veste em si o pior em medos,
Que sente da lua a saudade do sol,
Que no grito guardado explode em tácitos anseios...

Que de Vênus tem medo
E de Marte inveja o furor...

Pobre Touro de corpo alquebrado,
Que na casa da infância guardou desesperos
E nas portas da ausência soube descansar...

Touro despido de olhar sempre triste,
Que vislumbra harmonia e encontra abismos 
E também nuvens cinzas que o querem embalar...

Talvez seja isto:
Terra, não-Fogo, não-Água, Ar
E as fugas que Andrômeda sempre espreita...

E a teimosia revestiu-o de honras!

Émerson Cardoso
(26/12/13)