sexta-feira, 26 de setembro de 2014

PEDIDO À DEUSA ÁRTEMIS (ou hino dos assexuais)


Ártemis, expulsemos Afrodite:
Atiremo-la fora com fervores! 
Ó deusa revestida de pudores,
Despeça-a, renegue-a, nunca hesite,

Ártemis, humilhe-a e a impossibilite 
De propagar as urgências de amores
Que perpassam humanos com ardores:
Que ela, ao amor, a ninguém mais incite!

Ártemis, dos castos deusa, combata
As façanhas maldosas de Afrodite:
Proteja seus devotados mortais!

Seja contra Afrodite, e não cordata,
Pois esta vil, Ártemis, acredite
Destrói frágeis almas com seus punhais... 

Émerson Cardoso
26/09/14
17h 30min


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

DAS PROEZAS DE SETEMBRO

Setembro riu de mim com seu olhar ferino
Deslizou ousado na ponta dos meus dedos

Construiu silêncios em minha boca austera
Vestiu de ventanias meus passos em busca de

Quase me fez cair no precipício de improvável paz
Antes, serpenteou sorrindo, como sempre, e riu de mim

Setembro sempre procura subterfúgios para mostrar
Que respira cinzas de um incêndio que em mim se deu

E, no sertão, calor e sol - flores morreram
Porque maio se foi saudoso e triste sem despedida

Agora, por alguns dias, esperarei setembro sumir
E quem sabe minhas mãos sejam reabastecidas

Quero novos rumos, novas ideias, novas cores
Setembro precisa trazer outubro e fugir para sempre!

24/09/14


terça-feira, 15 de julho de 2014

IMAGENS

Roupas nos varais acenam,
Pedras, vento, solidão

Cenários austeros passam
Sem qualquer coloração

Choram que choram os seixos
Sentindo-se repisados

Na estrada altivo um cruzeiro
Verte sombra desolado

Olha-me o cinza vestido
Da moça de mãos tristonhas

De semblante ressentido
Por ter vida tão medonha

Para trás fica o cenário
Com sua gente desolada

Um bendito devotado
Guia o caminhão na estrada

Choram que choram as horas
Deslizando pelo caminho

Tendo ao lado tanta gente
Por que me sinto sozinho?

Choro com as horas choro
Sentindo-me triste e só

Cada passo um grito novo
Solidão que ri sem dó...



DECEPÇÃO

Algumas pessoas decidem por si
Tantas dores para os outros...

Trôpegos como bêbados
Trazem em si discernimento algum

Decidem pela iminente tragédia
(Hamartia anunciada pelos conselhos muitos)...

Falta espaço para a racionalidade, 
Ou de ingenuidade se firma o caráter?

Pobreza de espírito, 
Ou imaturidade que desliza em rios de ilusão?

Triste de quem não sabe ser gratidão
Aos que deram mão e abrigo e vida...

Mas, neste mundo que gira, 
Muito arrependimento pode personificar-se...

E tarde-demais poderá ser um longo grito
Que banha de arrependimento os que decidem sem reflexão:

Ilusão!
Ilusão!

19/07/14

ODE INCONFORMADA PARA JUAZEIRO DO NORTE



Ó cidade dos romeiros
Que à mercê da própria sorte
Debulha preces sentidas:
Quem te dará proteção
Contra facínoras, crápulas,
Que te roubam vorazmente
Eleição pós eleição?

Ó cidade atormentada
Pela falta de respeito
De monstruosos políticos:
Quem brigará por tuas lutas
Quem te dará novos homens
Que resguardem teus valores
E que tenham gestos dignos?

Ó cidade inconformada
De trânsito insuportável
E precária infraestrutura:
Quem te vê que não deseja
Novos rumos, novas eras,
Renovação dos teus bairros,
A segurança nas ruas?

Ó cidade sobranceira
De nordestinas sapiências
E de imponente memória:
Quem salvará do abandono
Teus recantos e riquezas?
Esqueceram-se de ti
Desprezaram tua história...


Queria limpar-te as feridas
Lavar teus olhos chorosos
Verter abraços queria
Sobre ti, cidade minha!

Queria salvar-te, Juazeiro,
Dar-te futuro honroso
Abrir-te as mãos com preclaras
Aconchegar-te em meu peito...

Ó cidade resistente,
Tenho pouco para dar-te:
Meus versos inconformados
São um presente simplório...

Mas os entrego, saudoso,
E espero ver-te, quem sabe,
Assistida e refulgente
A vestir novas roupagens!

(Émerson Cardoso)
15/07/14





 



quarta-feira, 25 de junho de 2014

ODE À ANA LUIZA CRISPIM


Quando acordei,
Sobre mim caiu um verso:
Papel corado que o vento abraça...

Brincando séria de fazer poema
Imagens dançam sob criativa marcha
Palavras nascem, crescem, reproduzem-se...

Vidrinhos frágeis contra pontiagudas pedras,
Facas que lambem dos olhos o branco, 
Colorido ácido que a pele fere com perfurantes dentes:

Eis a poesia - da que séria brinca.
Resguardados estão, seus versos, em coerentes muros:  
Força-frágil, janela-que-frestas-abre, significativas palavras... 

Agora, resta absorver o que virá
Da alma sobressalente da poetisa:
Leveza e cor, café à tarde, ironia e sombra? 

Poemas podem ser cortantes, 
Mas cicatrizantes também quando sussurram
Fugindo loucos do senso comum que nos espreita...

Tu és, merece que se diga: 
(Além da inteligência explicitada)
Uma sóbria, densa e exímia poetisa.

(Émerson Cardoso)
25/06/14