quinta-feira, 14 de novembro de 2013

ORAÇÃO DOS QUE TÊM MEDO



Deus Possível,
Olhe por mim nesta hora em fráguas,
Pois o silêncio é meu grito agora
Deveras sórdida me parece a vida...

Devo dizer, Senhor Possível,
Que os meus braços chorosos riem
Em desespero como guerreiros frágeis
Batalhas já não suportam mais...

Meus pés rasguei em pontiagudas pedras
Para arrefecer me convida a luta
Não me permita verter sangue em vão
Chagas abertas fechem do meu medo as portas...

Não me permita, Possível Senhor,
Que eu desista por pressentir a sombra
Do inimigo que me vê no espelho
E trama cárceres contra a minha honra...

Se eu repousar num amanhã sem sol
Segure firme minhas mãos, Senhor,
Que eu na guerra de pé sempre esteja
Mesmo que roto aos abismos desça...

Queira me ouvir nesta hora em dor
Que os meus olhos recomecem fortes
E minhas mãos firam os temores
Desta desdita de aparência infinda...

E quando na desesperança eterna
Amargurada minh'alma gritar
Que eu me erga com a pele em cinza
E recomece uma nova batalha!




Émerson Cardoso
(09/10/13)

domingo, 27 de outubro de 2013

DESENCONTRO



Olhei pela janela e vi:
Eu passava olhando para mim mesmo em silêncio...

Eu, da janela, olhei para mim
Eu, com passos de quem se perdeu, me olhei...

Olhares encontrados:
Eu, em mim, os olhos fixei...

Que efeito estranho ver-me de tal modo
À janela e a andar!
Eu era eu mesmo em dois extremos:
Cada gesto meu eu percebia
Cada olhar perscrutador, por mim lançado, eu identificava
E andei às pressas...

Como meus olhos andaram revoltos,
Será que eu esperaria por mim se da janela eu gritasse?
Se da rua meus olhos pedissem, será que da janela eu desceria?

Fui embora pelas ruas
Da janela, saí silente
Olhei o vazio
Pisei no vazio
E, para sempre, desfiz as possibilidades do amor...

...porque eu amaria a mim com intenso ardor!

Mas sequer tive coragem de, ao olhar, dizer, para mim mesmo,
Que meu coração sangue bombeava...

Numa esquina dobrei
Um novo cômodo, em casa, percorri
E a vida amargou em profusão

Eu teria, comigo mesmo, vivido uma história plena
Mas de desencontros se fez minha alma
E, sempre em silêncio, me vesti de solidão.

Émerson Cardoso
(16/03/10)




BALADA CONTRADITÓRIA


Em noite alta
Palavras vêm,
Mas falta algo
(Será alguém?)

Noite estrelada
Palavras vão.
Não falta nada
(Ninguém, ninguém...)

Que poesia 
Pode existir
Se ela vem
Depois se oculta?

O meu lirismo:
Canção tristonha
Que chora sempre
Ninguém escuta...

Noite tão alta
Palavras vêm,
Mas falta algo
Será alguém?

Ninguém, ninguém
Sozinha a vida
Parece festa 
De mil canções

Canções ferozes
Que lembram morte,
Solidão, dor, 
Melancolias...

Aonde ir?
Onde estará?
Quero palavras
Para cantar

Sem a palavra 
Que tanto busco
Há poesia? 
Acho que não...

Melhor assim
Querer alguém
Ninguém, ninguém
E solidão...

Ó Noite alta,
Onde a palavra
Que tanto busco
Que não me vem?

Ninguém me escute 
(Alguém, alguém!)
Falta-me algo
          Falta ninguém...          

Émerson Cardoso
(17/12/09 - 26/10/13)







sexta-feira, 25 de outubro de 2013

ODE AO FILOPOETA


De fixos olhos como que assombrado
Os deslimites da vida recria
No incerto da palavra fugidia
Tem, em silêncio, o mundo contemplado...

É um privilégio tê-lo encontrado
Neste século de melancolias...
Sua presença neste mundo me amplia
Conforto e paz em domingos nublados...

Seus fixos olhos vieram profundos
Quando ultimava certo mês de outubro
E tocaram, ávidos, a existência...

De percepções amplas gira seu mundo
Suas sóbrias loucuras sempre vislumbro
Como se visse a mim mesmo em essência...
Émerson Cardoso
(Para N. J., em outubro de 2013)

domingo, 29 de setembro de 2013

SUBTERFÚGIO PARA VIVER



Tenho um método para sobreviver:
Busco a leveza dos puros...

Quando meus olhos dançam
Numa metáfora em cinza
O dia parece mais leve
Como se nublações, finalmente,  
Despissem o manto que me reveste...

Tenho um modo para sobreviver:
Busco a leveza dos puros...

Uma janela atira sobre mim
Um sol obscuro quase feliz,
Mas odeio o feliz que é somente quase...
Certo da queda que me devassa
Rio de mim mesmo enquanto meu corpo cai...

Tenho um subterfúgio para sobreviver:
Busco a leveza que só o abismo na queda pode me dar!

Émerson Cardoso
(29/09/13)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A ARTE DE SER LEVE


Leveza é dom distribuído
Com avareza por quem nos inventou
Por isto, quem a possui na face
Ou na abertura das mãos
Deve sentir-se privilegiado...

Não deve orgulhar-se deste dom
Quem o possui:
Orgulho não consta
Em humanos de leveza em profusão...

Leveza, dentre outras grandezas,
Encontra seu jeito de se mostrar
Sem que o portador a ostente
Ou precise ocultá-la...

Leveza passeia em almas
Sempre profundas: 
Caminhos estreitos alargam-se 
Para que estas almas possam passar...

Talvez ainda se consiga
Alcançar a nobreza desse dom
Os que, do seu inventor, não o receberam,
Mas há, sabe-se, tanta exigência:

Tolerância sem angústia,
Conhecimento sem arrogância,
Simplicidade sem subserviência,
Ausência de mágoas, de incompreensões, de orgulho...

... e de outras marcas soturnas
Que podem transtornar a alma.

Leveza é fardo de vento e riso
Asas etéreas canções dulcíssimas vento na face
Árvores dançantes agasalho sereno e paz

Leveza é tão mais-mais
Que faz a gente rir até em tardes amarelas de domingo!

Émerson Cardoso
(Em João Pessoa - PB, em 15/09/13)








segunda-feira, 9 de setembro de 2013

ELEGIA A FEDERICO GARCÍA LORCA



Choram janelas semiabertas
Plantas purpúreas choram
Sombras das árvores fremem
Choram nuvens alterosas

Teus pés dolentes choram
Choram flores repisadas
Sussurra o vento e chora
Por tuas mãos aprisionadas

Logo à frente a morte
Passeio último que assombra
Teu sangue um verso pressente
Chora por ti a Espanha 

Que metáforas desenham
Teus olhos vendados?
Imagens poéticas te vêm
Quando te assombra a lua?

Uma velha cigana corre
Segura-te no colo e chora
Cavalos austeros galopam 
Gemendo por tuas fráguas

Mas o destino te fustiga:
Perecerá teu corpo inocente!
A cigana velha grita
Vermelho vestido ao vento

O passeio prossegue:
Coração confrangido
Pedregulhos pisados
Amortalhado silêncio...

Canções ciganas ecoam
Janelas teu corpo espreitam
A Espanha lamenta
A Andaluzia um filho perde...

Palavras aprisionadas
Penetram em pesadas armas
Prateado grito produzindo farpas
Preparadas apontadas palavras

Por fogo perpassada
A alma sentida sozinha cala
Despe a solidão o tempo insano
Em que vala teu corpo reinará?

A Espanha é uma Pietá desesperada
Caronte o aceita de abertos braços
E a velha cigana grita e geme
Correndo enlouquecida

Janelas flores nuvens
Pedregulhos sombras mágoas
Cavalos armas murmúrios
Prisões sepulcros mortalhas 

Teu corpo tombou pungido
Avermelhando de poesia a terra
Mártir andaluz, morremos todos:
Teu coração é nossa sepultura!

Émerson Cardoso
(02/09/13)